O que foi a IC Equal | Um novo paradigma

EQUALIS | 14 de fevereiro 2021 | LEGADO | DOCS-EQUAL – Ana Vale

Caracterização do novo paradigma da intervenção social

por Ana Vale, Gestora do Programa EQUAL

Passados oito anos, é possível, a partir da prática da EQUAL, extrair os elementos que compõem um novo paradigma da intervenção social e que devem constituir a base da acção futura se pretendemos uma sociedade mais coesa e inclusiva.

A prática da EQUAL mostrou que a intervenção social assente neste novo paradigma ao dar mais força, autonomia e poder às pessoas e organizações potencia o auto-emprego, a criação de emprego, e o desenvolvimento dos territórios e das comunidades.

2.1 As soluções devem centrar-se nos destinatários e ser construídas com eles, de preferência “por eles”, e não à sua revelia

Este é um requisito fundamental da inovação social: as respostas sociais devem centrar-se nas pessoas (e não nos processos) e ter em conta, em permanência, a diversidade dos seus problemas (que mudam) e contextos de vida e os seus ritmos de aprendizagem. Este princípio está associado ao empowerment “nada sobre nós sem nós”. “Trata-se de admitir que a construção de uma cidadania plena só pode ser construída com as pessoas e grupos em situação de exclusão e não através de algo que lhes possa ser oferecido ou imposto. Na EQUAL a operacionalização do princípio do empowerment permitiu que as intervenções sociais e as novas soluções respondessem melhor às necessidades reais das pessoas, fossem elas agentes ou destinatárias das acções.

Empowerment significa dar voz aos “alvos” da acção nos assuntos que lhes dizem respeito, implica reforçar a sua capacidade de influenciar rumos e decisões e mesmo participar activamente nas decisões. É este princípio que assegura que as políticas e intervenções sociais sejam orientadas para os (e pelos) efectivos interesses dos utilizadores, tornando-as muito mais eficazes e eficientes.

1 Henriques, J.M. (2001), Empowerment como Princípio: Perspectivas para a Acção, Espaço e Desenvolvimento

2.2 Focalizar na “força” das pessoas e das comunidades e não nas suas “fraquezas”

Este novo paradigma implica uma mudança de atitude que se traduz na valorização positiva dos “mais frágeis” ou “sem poder”.

É um dos principais legados da EQUAL: é a afirmação do primado das capacidades das pessoas sobre as suas necessidades. Os apoios aos grupos mais vulneráveis, quando orientados para desenvolver as suas competências e potenciar os seus talentos, reforçam a autoconfiança e a motivação, reposicionam a dignidade das pessoas e permitem uma melhor integração no mercado de trabalho com mais autonomia e mais responsabilização.

A acção “assistencialista” orientada para suprir necessidades, a atitude paternalista e até caritativa face aos públicos, e a cultura de “subsídio-dependência” que foram sendo criadas e alimentadas, devem dar lugar a iniciativas 2.2 Focalizar na “força” das pessoas e das comunidades e não nas suas “fraquezas” solidárias e proactivas, que coloquem a capacidade e iniciativa dos mais vulneráveis no centro da acção, fomentando a sua autonomia e responsabilização. Iniciativas que acreditem nas pessoas, que as apoiem a encontrar respostas para os seus problemas, que lhes permitam encontrar dentro de si o potencial necessário para conceber e concretizar mudanças.

“É o reconhecimento de que a mudança social efectiva só é possível se se confiar nas comunidades, atribuindo-lhes a posse de soluções para os seus problemas e dando-lhes instrumentos e estímulo para se encarregarem do seu próprio destino

Metz, Ben, Director da ASHOKA no Reino Unido no evento “Projectando um NovoFuturo”, 10 de Dezembro 2008.

2.3 Capitalizar a diversidade de etnias, idades, religiões, género, etc., e não só combater a discriminação

Capitalizar a diversidade é explorar positivamente a enorme riqueza que advém de culturas distintas e de olhares e perspectivas diversificadas. É passar das acções destinadas a combater as discriminações para as acções que vêm na diversidade um potencial que pode e deve ser capitalizado em benefício das pessoas, das organizações e da vida local. 2.4 Desenvolver uma abordagem holística, em vez de responder de forma fragmentada à diversidade dos problemas das pessoas.

Em vez de sublinhar as diferenças entre grupos e indivíduos, preconiza-se a ideia da rentabilidade das organizações que sabem tirar partido da diversidade. As “cartas de diversidade” e os códigos de conduta revelam-se para as empresas que acolhem a diversidade e combatem a discriminação uma base sólida para mudar práticas profissionais, para promover a inovação organizacional e até para ganhar novos mercados.

2.4 Desenvolver uma abordagem holística, em vez de responder de forma fragmentada à diversidade dos problemas das pessoas

A diversidade e complexidade dos problemas com que hoje as pessoas e as sociedades se confrontam requerem cada vez mais respostas específicas, muitas vezes especializadas. Mas especialização não pode significar desintegração. É necessária uma visão global da pessoa, dos seus diversos problemas e dar-lhes resposta como a um todo, de forma integrada, o que significa ultrapassar os serviços múltiplos e descoordenados, cada um respondendo segundo a sua vocação a aspectos parcelares do problema, tantas vezes com duplicação de esforços e desperdício de recursos.

2.5 Reforçar e alargar o trabalho em parceria, em vez de cada um, cada organização assumir individualmente os “seus” serviços e as suas responsabilidades

O slogan “Melhor do que eu, só nós em Parceria” nascido na EQUAL, retrata bem o sentido e a força deste princípio. Na EQUAL responder de forma integrada e mais abrangente aos problemas passou pela constituição de “parcerias de desenvolvimento” agregando parceiros diversificados, com competências complementares, que fizeram o enfoque na solução de problemas pluridisciplinares e não na resolução de aspectos particulares e segmentados do problema. Ou seja, as parcerias permiti2.6 Trabalho colaborativo e em rede como forma de potenciar a inovação social ram uma abordagem mais sistémica e holística da inclusão social.

Por outro lado, a diversidade de perfis e culturas dos vários parceiros, o compromisso em contribuir com as suas competências específicas para um objectivo comum, o reconhecimento dos ganhos que cada parceiro extrai da parceria, a dinâmica de partilha que se desenvolveu (partilha de objectivos, de conhecimento, de responsabilidades e de financiamento), foram factores altamente indutores de inovação.

2.6 Trabalho colaborativo e em rede como forma de potenciar a inovação social

 Na EQUAL, as parcerias foram desafiadas a ir mais além: a trabalhar em rede, a partilhar experiências e pontos de vista, a expor os resultados da sua actividade a pares e a peritos, e a deles recolher contributos e reconhecimento. A dinâmica criada nas Redes Temáticas revelou-se fundamental para sedimentar uma cultura de colaboração, para desenvolver competências e conhecimento, para alargar a visão das organizações envolvidas e acrescentar valor às suas intervenções.

O trabalho colaborativo dos diferentes actores envolvidos nas Redes EQUAL permitiu chegar a novas soluções. E quanto mais o processo foi dinâmico e interactivo e quanto mais se interligaram experiências e práticas distintas, maior foi a aprendizagem, a descoberta e a inovação. As Redes EQUAL estimularam e desenvolveram uma nova capacidade de aprendizagem.

2.7 Criar soluções de proximidade que têm por base a comunidade local e não soluções “globais” desfasadas das pessoas e das comunidades

O nível local é o nível onde se constrói e fortalece a implicação e o compromisso das pessoas, onde é possível mobilizar capacidades para resolver problemas comuns, onde as pessoas mais são capazes, elas próprias, de encontrar soluções para os seus problemas. É nos territórios que a complementaridade das respostas à diversidade dos problemas dos públicos é mais visível e mais pode frutificar. Quando soluções de cooperação implicando actores de vários sectores de uma comunidade se conjugam, então o sentido da “comunidade” sai reforçado. “As abordagens integradas de base territorial introduzem um inegável valor acrescentado, pelas dinâmicas próprias de conhecimento, cooperação e coordenação que estimulam. Alargam, assim, a base potencial de oportunidades de desenvolvimento das comunidades, contribuindo para uma maior coesão territorial.

Em primeiro lugar, porque estimulam a mobilização coordenada de capacidades, a negociação entre actores e o desenvolvimento de práticas individuais e institucionais convergentes ou em parceria, polarizadas por uma lógica de desenvolvimento territorial. Em segundo lugar, valorizam a diversidade territorial e a participação cívica, potenciando o ajustamento de estratégias, políticas e instrumentos pensados de forma genérica e abstracta. Finalmente, porque a construção de uma voz colectiva cuja organização e força assentam na partilha de um projecto de base territorial permite uma relação mais equilibrada e virtuosa entre opções estratégicas definidas a partir de sedes de decisão pública, privada e cívica muito distintas, umas locais ou regionais, outras nacionais, comunitárias ou mesmo globais.

João Ferrão, Secretário de Estado do Ordenamento do Território e das Cidades in “AnimaçãoTerritorial – Caminhos para a Inovação Social” (2008) Gabinete de Gestão EQUAL e Rede Anim@te

2.8 Apostar mais na cooperação do que na competição

Em momentos de crise, as empresas ganham em ouvir os stokeholders, em abrir-se ao exterior e em definir estratégias de cooperação que constituam efectivos amortecedores da crise. Ouvir e concertar estratégias responsáveis, com colaboradores, fornecedores e até concorrentes, para minimizar custos sociais, alargar mercados e ganhar competitividade, pode constituir uma abordagem responsável capaz de reduzir os efeitos negativos da crise.

2.9 Disseminar e sustentar a inovação social para rentabilizar o investimento feito nas novas soluções e multiplicar a sua mais valia

 A inovação que este novo paradigma induz, deve poder ser utilizada em contextos mais alargados do que aquele em que foi gerada. Para que tal aconteça, a inovação tem de estar contida em produtos tangíveis, susceptíveis de ser transferidos e de ter visibilidade e reconhecimento social. Os momentos de validação das novas soluções revelaram- -se, na EQUAL, de grande mais valia para os próprios conceptores, para a qualidade e reconhecimento dos seus produtos/soluções e para a sua disseminação.

A transferência de produtos e a sua incorporação por terceiros devem permitir a maturação do próprio produto face aos novos contextos de incorporação, a sua adequação permanente e sustentação. A disseminação é, assim, um meio de melhoria contínua da qualidade das soluções, uma oportunidade de aprender com os outros e de cooperar. É, simultaneamente, consequência e factor inerente a qualquer processo de inovação social

 2.10 Valorizar as novas competências associadas à inovação, à descoberta do que é novo, do que tem futuro e que resulta, e não só as competências certificáveis

Este novo paradigma está a fazer emergir novos perfis profissionais – o facilitador do empowerment, o animador de comunidades locais e do trabalho em rede, o mediador das minorias e dos mais vulneráveis, o “validador” de novos produtos e soluções, o promotor da disseminação, etc. – e novas lideranças, nomeadamente quando está em causa imaginar e visualizar o futuro num contexto de grande imprevisibilidade.

A estes perfis estão associadas capacidades e competências de comunicação, de aprender com a experiência, sobretudo com os erros, de resolver conflitos, de ter uma visão inclusiva, de focalizar no cliente, de gerir projectos e de mudar inovando, de trabalhar em equipa, de brokerage, de liderança, etc.; competências que se desenvolvem em contextos de intervenção onde é cada vez mais forte o apelo ao trabalho interdisciplinar e inter-organizacional em ambientes multiculturais, à capacidade organizativa de base territorial, ao trabalho em parceria, à capacidade de vislumbrar um sentido de futuro, de identificar o que é novo e eficaz.

2.11 Reconhecer e valorizar os artistas sociais

Neste novo paradigma, ganham relevo os “artistas sociais” de Etienne Wenger, cuja acção tem a ver com o “coração e o espírito, com a paixão e o compromisso, com um novo tipo de liderança – muitas vezes pouco visível – que precisamos de reconhecer, apoiar e celebrar. Estes novos leaders actuam como cidadãos aprendentes. Participam em comunidades relevantes, atravessam as fronteiras da comunidade, apoiam a criação de novas comunidades. Utilizam a sua história pessoal – as suas relações, visão, estatuto, para criar espaços produtivos de aprendizagem.”4 Segundo Wenger, estes leaders são criativos, intuitivos, adaptam-se de forma inteligente a novas situações, são socialmente sensíveis e sabem como fazer da aprendizagem um espaço socialmente estimulante e indutor de inovação.

Etienne Wenger no Evento “Projectar um Novo Futuro”, Lisboa, 10 de Dezembro 2008              

2.12 Uma nova governação da aprendizagem

A experiência demonstrou que a inovação está associada a espaços de encontro e de interacção das pessoas onde a aprendizagem ocorre. Foi assim nas parcerias, nas equipas de projecto, nas redes temáticas, na cooperação transnacional, onde o confronto das diferentes experiências dos participantes fez emergir novas ideias e novas soluções.

Este processo de cada um trazer a sua prática para um mesmo espaço (“espaço social de aprendizagem”, na designação de E. Wenger), poder partilhá-la com os outros e aprender com a prática dos outros, é um processo interactivo muito dinâmico, mobilizador e, até, contagiante. É, no entanto, um processo que depende em muito dos próprios participantes e do seu empenhamento e que ganha com a intervenção de um bom animador, capaz de facilitar a comunicação e a dinâmica da aprendizagem, induzindo o caminho da mudança. Se a inovação e a sua disseminação dependem tanto desta capacidade de partilhar e aprender com os outros há que atribuir grande prioridade à construção de parcerias, de comunidades de prática e de redes. Encorajar, apoiar e facilitar estes espaços sociais de aprendizagem é, por isso, uma das mais relevantes missões de uma nova governação responsável e empenhada em maximizar a capacidade de aprendizagem e a inovação.

Esta nova governação deve saber aproveitar as ideias geradas nestes espaços, valorizá-las e transformá-las em novos recursos e meios a implementar, em benefício da inovação dos sistemas e das políticas.

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