OFICINAS DO FUTURO | Como vamos construir a cidade e a sociedade pós-pandémica?
EQUALIS | 26 de março 2021 | Oficinas do Futuro
José Carlos Mota, docente do DCSPT-UA
A pandemia da covid-19 irá marcar decisivamente o nosso futuro. Deixará um rasto dramático de perdas humanas, sofrimento e destruição de empregos que demorará muito a ser reparado. Em Portugal, por exemplo, já há mais de 300 mil pessoas contaminadas, cerca de um milhão de portugueses já deverá ter tido contacto com o vírus[1] e mais de 4.900 pessoas morreram em resultado da doença.
Territórios de elevada concentração de pessoas e atividades e, por esse motivo, onde se registam os maiores focos de contaminação, as cidades estão a ser os palcos dos maiores impactos desta pandemia. A proximidade física, uma das características principais da natureza urbana, passou a constituir um risco de saúde pública.
Fruto das restrições impostas, o confinamento fez com que se passasse a valorizar ainda mais o espaço público e o ar livre. A sua escassez ou falta de qualidade entrou no debate público e levou a que muitos – em particular os urbanistas – começassem a questionar as formas de organização e fruição da cidade. O problema da cidade e o seu futuro passaram a ser um feliz efeito colateral da pandemia.
Contudo, o que afeta o futuro das cidades não é só a ameaça de saúde pública. Há um conjunto de problemas cuja dimensão é tão grave e a resolução tão urgente quanto esta pandemia. A crise climática, demonstrada pelo aumento médio da temperatura e pelos fenómenos climáticos severos, ameaça a sobrevivência humana[2]. As crescentes desigualdades sociais, ilustradas pelo facto de 2.153 bilionários possuírem uma riqueza equivalente a 4,6 bilhões de pessoas[3], levantam fundadas perplexidades e problemas de coesão à escala mundial.
Perante tamanhos desafios, complexos e sobrepostos, não será fácil encontrar respostas evidentes e fáceis de executar. Ainda assim, talvez valha a pena olhar para que fizemos durante estes nove meses de pandemia e tentar encontrar neles caminhos inspiradores.
O confinamento realizado de março a maio mostrou um conjunto de novas ações coletivas. Poucos dias depois de decretado o lock down, 1,6 milhões de alunos passaram a ter aulas à distância e quase um quarto dos 4,9 milhões de trabalhadores passaram a realizar a sua atividade profissional de forma remota[4]. As dificuldades de acesso ao ensino à distância fizeram com que surgissem plataformas cívicas de oferta e/ou empréstimo de computador[5] ou de apoio ao estudo solidário[6]. A necessidade de abastecimento das famílias gerou um enorme esforço de digitalização de serviços, de fornecimentos ao domicílio, ativando circuitos curtos de produção e consumo local e de micrologística urbana. Por último, o isolamento de pessoas idosas ou de risco, ativou redes solidárias de entrega de alimentos e medicamentos em casa e de doações de produtos alimentícios, e as relações de vizinhança tiveram um novo fôlego com o surgimento de grupos de apoio através das redes sociais[7], promovendo micro-eventos comunitários e também reflexões online.
Foi notável o que foi possível fazer durante essa emergência com a mobilização da energia cívica, empresarial e institucional e a ativação de inúmeros recursos latentes, geralmente invisíveis e nem sempre valorizados. Neste curto período, foi possível experimentar um novo modelo de sociedade e de cidade há muito desejado, um modelo mais solidário, colaborativo e de proximidade. Um modelo que, em condições anómalas, provou ser muito eficaz e possível.
É, pois, este o desafio que se coloca no futuro pós-covid. Como vamos aprender com o que fizemos diferente e de que forma podemos mudar os nossos objetivos e a forma como nos organizamos coletivamente, como nos mobilizamos por causas de interesse comum e como valorizamos o que somos e o que temos.
[1] https://www.publico.pt/2020/12/03/sociedade/noticia/cerca-milhao-portugueses-ja-devera-contacto-virus-1941608
[2] Christiana Figueres e Tom Rivett-Carnac «O futuro que escolhermos», Temas e Debates, 2020
[3] Oxfam Report https://www.oxfam.org/en/tags/inequality
[4] INE, 2020
[5] Student Keep https://studentkeep.org/
[6] Aveiro é nosso https://www.aveiroenosso.pt/
[7] Vizinhos de Aveiro https://vizinhos-aveiro.pt/